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O GATO NA LITERATURA

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“É preciso absolutamente pintar gatos!” (Renoir).


Os gatos são a companhia ideal para quem tem o hábito de ler. Silenciosos e independentes, sabem respeitar a concentração dedicada a uma boa leitura.  Muitos escritores, artistas e outras pessoas notáveis inspiraram-se nos gatos e nos ofereceram frases e poemas que valem a pena ser transcritos:
“…Ele fixaria em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.” (Lygia Fagundes Telles, em “A Disciplina do Amor”);

“O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios”. (Lord Byron);

“Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.” (Mark Twain);

“Existem dois modos de se refugiar das misérias da vida: música e gatos.”  (Albert Schweitzer - filósofo e médico);

“São distantes, discretos, impecavelmente limpos e sabem calar. Falta mais alguma coisa para considerá-los uma excelente companhia?” (Rainha Maria Leszczynska - esposa de Luís XV);

“Nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece”.
(Ártur de Távola);

“Quem pode acreditar que não há uma alma atrás daqueles olhos luminosos?” (Theophile Gauthier);

"Se quiser escrever, arranje um gato" (A. Huxley)

"A literatura está ao lado do gato" (B. Pivot)

"Os gatos apreciam o silêncio, a ordem e a calma e nenhum lugar lhes convém mais do que o escritório do literato" (T. Gauthier)

 

( trecho de ”Ode ao Gato”- A visão brilhante do poeta PABLO NERUDA)

"O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
Os animais foram imperfeitos, compridos  de rabo, tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo, fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato, quer ser só gato
e todo gato é gato, do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.”

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Dizem que para se gostar de gatos, animais independentes por natureza, é preciso ter a alma livre, sem essa pretensão humana de se dominar a tudo e a todos. Mas serão os escritores pessoas de almas livres? Livres por serem capazes de deixar seus personagens tomarem conta de seus próprios textos? Suas criaturas dominarem seus próprios criadores? Ou será que são os gatos que procuram os escritores? Há gatos que adoram livros e vivem em bibliotecas. Talvez a atração seja mútua. Assim como os gatos são ótimas companhias quando estamos escrevendo, porque ficam em silêncio, ora deitados no colo, ora deitados num cantinho perto de nós; eles também parecem gostar disso, de ficar horas no mesmo lugar, ouvindo o barulho do teclado, sabendo que estamos ali com eles. O mundo reduzido às letras e aos gatos. Talvez esse seja o segredo: o ato de escrever é tão solitário que ao sabermos que nosso gato está junto a nós, adorando tudo isso, nos sentimos menos sozinhos. E não só pela presença física deles, mas também pelo seu amor livre e sincero.  ( Aline Ponce )
Cats Map (www.ironfrog.com/catsmap.html), é um projeto de  catalogar os gatos que vivem e "trabalham" em bibliotecas de todo o mundo. Pode parecer surpreendente, mas dezenas de gatos, espalhados pelos países mais diferentes, demonstraram - como sempre! - sabedoria e escolheram viver no melhor dos ambientes: em meio aos livros. Na longa relação, alguns desses maravilhosos felinos têm, além de um breve histórico, uma ou mais fotografias: um, dorme entre os in-fólios; outro, refestela-se sob um naco de sol, ao lado dos arquivos; com a pata delicadamente pousada sobre a página, simulando o gesto de folhear o livro, o terceiro expressa um olhar vago, semelhante ao dos filósofos quando meditam.

O GATO NA ESCRITA DURANTE OS TEMPOS

A Antiguidade: Entre os poetas e escritores da Antiguidade que abordaram o tema do gato, podemos mencionar Homero, Plutarco, Ésopo, Virgílio e Ovídio.
Ésopo conta-nos que uma gata apaixonada por um rapaz pede a Vénus que a transforme em mulher (La Fontaine retomará mais tarde este conto em "A Gata Transformada em Mulher"). Mas, apesar da sua transformação, a gata continuava a ser um felino e, como tal, lança-se em perseguição de um rato que atravessava a sala. Nas suas metamorfoses, Ovídio descreve a transformação de Diana, a irmã de Apolo, em gata.
A Idade Média: No século XII, o gato é encontrado nas farsas e fábulas como, por exemplo, no "Romance da Raposa", onde está Tibert, o gato que encarna a mentira, a crueldade e a astúcia, da mesma forma que o faz Renart. As histórias de bruxaria estão também profusamente recheadas de gatos.
A Renascença: No século XVI, as opiniões sobre o gato permaneciam, ainda, divididas. Ronsard e Rabelais partilhavam a mesma repulsa por este animal, enquanto que Montaigne ("Ensaios") e Du Bellay o defendiam apaixonadamente. Este último, chegou mesmo a compor um epitáfio de duzentos versos em memória do seu gato Belaud.
A Época Clássica: Os fabulistas repercutiram a censura popular contra o gato e contribuiram para o enriquecimento da sua imagem negativa. La Fontaine via também o gato como um animal egoísta, lisonjeiro e velhaco. Utilizou-o para caricaturar o cónego. Colocou-o em cena dezesseis vezes,  mas o animal nunca saiu favoravelmente retratado. O gato de La Fontaine é o "Atila dos roedores", um caçador astuto, falso e cruel ("O Gato, a Doninha e o Coelho" que renega os seus amigos por interesse "(O Gato e os dois Pardais"). Os nomes que lhe são atribuídos revelam o desprezo do autor: Raminagrobis, Raton, Rodilard, Grippe-Fromage ou Grippeminaud.
Os "gatos falsos" de Rabelais assemelham-se a Raminagrobis. O escritor caracteriza o gato como hipócrita e usa este animal para satirizaros magistrados e o seu chefe Grippeminault.
Extraído das Histórias ou Contos dos Tempos Passados (1697), o Gato de Botas, de Charles Perrault, restitui ao gato astuto – porém, fiel ao amo - o papel de amuleto. Tal como em todos os contos, o autor inspira-se na tradição popular. Esta obra ilustra a vingança do filho mais novo, pobre e abandonado, graças à ajuda do seu gato. Nesta obra de grande simbolismo, as forças lunares encarnadas pela magia do gato opõem-se às forças solares representadas pela realeza.
Em a "Gata Branca", redigida pela Sra. D'Aulnoy e extraída dos seus Contos Novos ou as Fadas da Moda (1689), o gato aparece de novo como um guia maravilhoso e protetor (gênio tutelar) que traz a felicidade àquele que serve. Mais uma vez encontramos múltiplos símbolos e o antigo equilíbrio é restabelecido: três reinos solares face a três reinos lunares.
Em ambos os casos, M.-L. Von Franz viu nestes dois contos a necessidade de o herói recuperar a sua sombra (o seu gato), isto é, reintegrar a sua alma na sua personalidade consciente. De acordo com a explicação freudiana, Bruno Bettelheim explica que o Homem deve aprender a ter confiança no seu inconsciente e aceitá-lo.
Século XVIII: Em 1772 foi publicada a primeira obra realmente dedicada à glória do gato, os Gatos, de François Auguste Paradis de Moncriff. Este autor descreve estes animais como seres independentes e alegres, constituindo como que réplicas, e avançando em direção ao ser humano por ação da simples ternura e não por servilismo como os cães. Tal como os seus corpos, os seus sentimentos estão repletos de graça. Mas esta obra valeu-lhe a zombaria de Voltaire.
Na História Natural, Buffon (1749-1804) defende a sinceridade do cão em oposição à falsidade do gato.
Chateaubriand (1768-1804), admirador da independência deste animal, revoltou-se contra Buffon. Reconheceu que queria promover a imagem do gato e descreveu o animal com ternura (incluindo Micetto em Memórias de Além-Túmulo).
Século XIX : Em O Sofrimento Amoroso de uma Gata Inglesa, Balzac utiliza este animal como porta-voz para denunciar o puritanismo britânico e a sua hipocrisia. Ele reconheceu que com esta obra entrou na área da psicologia comparada. Exatamente como La Fontaine, Balzac sonhava com a Gata Transformada em Mulher.
Os escritores do século XIX exaltaram a ambiguidade, o mistério e o individualismo do gato assim como o seu parentesco com as forças ocultas. Pelas mesmas razões que os gatos foram exterminados em massa no século XVII, foram adorados no século XIX. "O gato misterioso, o gato seráfico e o gato estranho" de Baudelaire ilustra perfeitamente esta perspectiva em dois poemas das Flores do Mal: o "Gato" e os "Gatos".A flexibilidade do corpo e a sua felpuda pelagem desempenham um importante papel afrodisíaco.
Os escritores românticos: Os escritores românticos sentiram-se apaixonados pelo mistério e pela magia associados aos felinos. Verlaine elogiou as virtudes do gato em “AMulher e a Gata “.
O extraordinário gato de Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll, 1865), é uma ilustração perfeita do absurdo e do contra-senso ligado a este animal enigmático.

Os gatos de Edward Lear, poeta mestre do contra-senso, eram, simultaneamente, companheiros de vida e de temas literários ("a Coruja e a Gatinha"). O absurdo é o contrário do senso comum e, nesta perspectiva, o gato prova novamente a sua independência através do seu espírito de rebeldia e de mistério.
Século XX: O século XX continuou a celebrar o gato, passando mais além do romantismo e procurando compreender e descobrir o animal.
Pierre Loti tenta "penetrar na estranha janela dos olhos do gato para alcançar a zona desconhecida do seu pequeno cérebro". O gato assume, muitas vezes, um aspecto ditatorial na literatura contemporânea. O gato não mendiga. Pode exercer a sua liberdade e, como tal, o escritor sente-se reeleito todos os dias. "Perde-se um gato, encontra-se o Homem" (Tennessee Williams.)
Enquanto que, para Émile Zola, o gato preto simboliza o mal praticado como uma testemunha de um assassinato (Thérèse Raquin), para Edgar Poe, o gato preto evoca uma certa inquietação relacionada com o mal. O animal parece desencadear forças obscuras, com culpabilidade sexual e luxúria.
Robert Sabatier sente que mora em casa do seu gato. Graf Bouby (Jean Blot) refere-se aos seus donos como os seus escravos. Paul Morand confessa no Homem Apressado: "Tive cem gatos, ou melhor, foram cem gatos que me tiveram".
Atualmente : o gato inspira e desempenha um papel nas meditações do autor (Uma Vida de Gato, de Yves Navarre e Graph Bouby, de Jean Blot). Boris Simon acredita que o gato permite que o homem se auto-aperfeiçoe: o cruel chefe de banda do seu livro Passagem do homem-gato descobre o amor dos felinos, a sua ternura e a sua vulnerabilidade, e consegue, graças a ele, comunicar de forma respeitosa com os outros.
O gato pode tornar-se o espelho do escritor. Na trilogia alemã de Louis-Ferdinand Céline (Norte, De um Gato para o Outro, Rigodon) é manifestado um paralelismo flagrante entre a personalidade e o comportamento do autor e o gato Bébert.
A morte do animal é, assim, vivida como um drama, sendo muitas vezes acompanhada por sentimentos de culpa (O Gato dos Briarres, de Renée Massip, A Idade da Razão de Jean-Paul Sartre).
Ao longo dos tempos, alguns temas constantes persistem na forma como os escritores vêem o gato: o gato e a escrita, o gato e a volúpia, a sexualidade, o gato e a mulher, o gato e o absurdo, o gato sagrado ou diabólico e o sempre eterno MISTÉRIO DO GATO.

 

Textos extraídos de diversos autores por Miaurisa


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